Retornando a este limbo pela simples falta de gente para desabafar. Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que detesto, DETESTO escrever. Acho que você precisa necessariamente criar certas verdades absolutas no ato da escrita. É como aquele lance de espetar as borboletas, deixando-as inertes. Prefiro permitir seus voos livres na minha mente... Isso sem contar que sou mais adepta à comunicação visual. Nunca fui boa com as palavras. Existem sentimentos que são intraduzíveis no papel. Um gesto, um olhar, uma fusão de cores, imagens, talvez isso represente melhor determinadas ideias. Mas eu não vim aqui para justificar meu silêncio. Aliás, ainda estou tentando descobrir o real motivo de eu ter parado aqui hoje... De fato, eu nunca vou descobrir e nem quero me limitar a escolher um aleatoriamente. Sendo assim, vou tentar começar falando da minha infância, de algumas dificuldades que sentia no convívio social e com as quais convivo até hoje. As pessoas, em geral, sempre foram um grande problema para mim. Fui - e parece que não mudei muito de lá pra cá - daquelas que buscavam o isolamento a qualquer custo. O primeiro caso do qual tenho lembranças foi quando eu tinha 3 anos e estava na creche. Dentre os coleguinhas da minha turma, havia uma garota que tinha adquirido uma simpatia meio esquisita por mim. Sim, logo POR MIM. Enquanto ela vivia no meu pé, eu ficava tentando me esconder ou fingindo que não a via. Sei lá, eu acho que curtia mais os passeios ao ar livre, o tanquinho de água onde fazíamos natação e comer areia do pátio de recreação (tudo culpa das lombrigas!). Lembro-me de uma vez, em especial, em que eu havia chegado na creche há pouco e a garotinha lá ainda não estava. Então, ela chegou com a mãe no portão e, na despedida, olhou para dentro da creche e não me avistou por lá. Abriu o berreiro instantaneamente. Sabe o que eu fiz? Fiquei observando aquela cena de longe, do canto da parede. Mas não era por sadismo ou maldade ou qualquer coisa que o valha. Eu simplesmente não compreendia o que se passava com ela. Só sabia de uma coisa: a solidão era-me bem-vinda. Fora essa menina, eu me recordo também de uma experiência positiva numa das "aulas": a professora tentava despertar nosso interesse pela alimentação saudável introduzindo frutas nas merendas. Foi aí que eu descobri a laranja. Paixão à primeira mordida! Aquela cor vibrante misturada com aquele caldinho levemente ácido, mas, ao mesmo tempo, extremamente refrescante. Ahh, a laranja. Desde então, nutro, até os dias de hoje, uma simpatia especial por essa fruta. Outro espisódio marcante e que deve revelar muito da minha história na creche aconteceu no pátio, mais especificamente no balanço. Meu professor de atividades físicas perguntou se eu não queria sentar na cadeirinha para ele me balançar (calma, não pensem besteiras, crianças). Um temor súbito me invadiu. Até então, eu apenas tinha ficado parada lá, pois tinha medo de, num movimento brusco, acontecer uma possível queda. Tinha muito medo. Respondi que não, bastante apreensiva e tentando disfarçar minha covardia. Ele insistiu e eu resolvi ceder. Sentei na cadeirinha e já me vi automaticamente dando de cara no chão. O professor começou a empurrar devagar, depois um pouco mais rápido e mais rápido e... tchibum! Engoli tanta areia que nem devo ter precisado almoçar nesse dia. Acho que começou daí minha desconfiança das pessoas. E eu repetindo comigo mesma: "Eu já sabia, eu já sabia!"
Agora cansei. Outro dia eu continuo com mais histórias.
Ou não.
